não dá para fazer uma lista com todos os desafios de uma gestação. o que está acontecendo hoje pode passar amanhã e vice-versa. neste período, há duas coisas potencialmente difíceis: o ponto de equilíbrio e hormônios.
com o aumento da barriga, o ponto de equilíbrio da grávida se desloca para frente. assim explicando o porquê de ficar estabanada, (risos). mas eu acredito que o (des)equilíbrio é mais do que isso nesta fase.
pode desencadear uma série de circunstâncias que estavam quietinhas em seu interior. é aí que entra o aumento de hormônios. é claro que eles aumentam para desenvolver o feto. porém, no lado emocional eles são extremamente arriscados.
como sabem, eu lutei contra depressão, inevitavelmente. após a morte do meu filho - que dava sentido a vida - me vi solitária e incompreendida. até hoje, algumas pessoas não sabem o que significa esse fardo e me olham com certa estranheza. eu mesma tentei ignorar esse estado de espírito por um bom tempo, me ocupei com outras coisas, e, independente disso, sempre tinha o dia em que precisava ser contida com remédios - sem jamais assumir a fraqueza. deixei de lado psicólogo e assumi que somente ame resgataria. e fui assim por um bom tempo. até que outra gestação habitou em mim e começou a bagunçar (ou arrumar) tudo.
 voltando ao ponto de equilíbrio, no sentido emocional, é como se tivesse perdido um chão de madeira sob meus pés, chão esse que eu preguei madeira por madeira. com a sensibilidade aguçada só pensava em não poder oferecer a convivência com o irmão mais velho, no risco de me dedicar mais a um do que ao outro, na infeliz sensação de poder falhar na missão. e dá-lhe potes de sorvete, chocolates e pipoca para driblar isso. querendo ou não, estava ali, era o meu instinto materno se auto condenando. olhar para fotografias de Benício virou um desafio, desde então. hoje (24/02) eu iria fazer uma ultrassonografia e provavelmente descobrir o sexo do bebê, mas quem disse que eu consegui levantar da cama sem todo o drama? deixei o drama tomar conta de mim pois é mais fácil do que brigar para se manter sã, gravidez deixa a gente cansada com um mínimo de esforço e por saber que somente eu poderia sentir com exatidão eu me fechava e não dava explicações. até porque não sou do tipo de espalhar tristeza. mas imagino que deixei muitas pessoas confusas com o silêncio imutável outrora riso incontrolável. e quem é que está ligando para dar satisfações? grávida tem que ser um ser soberano e livre de perguntas chatas, apenas acompanhe o ritmo dela, (risos). as pessoas deveriam se questionar: e se fosse eu que tivesse enterrado meu filho? talvez estivesse igual.
o que não significa que somente a depressão fica tentando se instalar, tem seu lado bom, como uma injeção de adrenalina que me faz voltar ao que eu era bem antes, ainda adolescente e sem limites para sonhar. é nessas horas que o circulo vicioso começa. afinal, alegria demais me lembra que tudo tem sua consequência, e a minha é voltar para os chocolates e filmes melosos todas as vezes em que lembro da ausência de metade do meu coração (é apenas um paradoxo).
para driblar isso, - sim! não é só de reclamações que se constrói a vida - é necessário um esforço físico e mental simultaneamente. no meu caso funciona ouvir uma música e dançá-la, praticar ioga, nadar livremente ou - e principalmente - meditar. encontrei na meditação a chave para sair do vazio e expulsar as tensões. não importa o que está acontecendo agora na sua vida, se está grávida ou não, tente pelo menos uma vez meditar. há alguns canais no youtube que facilitam essa iniciação. ouse mais. sinta cada parte do seu corpo de um jeito diferente. vou continuar sentindo falta de Benício, só que inventando todos os dias uma forma de doer menos.

mas se de qualquer forma, não for da sua vontade fazer alguma coisa, seja positiva e espere. é igual desejo, depois passa...